A última semana foi marcada por uma paralisação de caminhoneiros que marcou a história desse país e certamente  será lembrada por muitos anos. Mas, ao observar aquilo que todos veem como o final desse movimento, fico muito preocupado com o que ainda está por vir. Basicamente estou me referindo a um dos tópicos de discussão que motivou o fim da paralisação: a exigência dos caminhoneiros ao governo de fazer chegar às bombas uma redução de 46 centavos no preço do diesel.

Preocupado pois não vejo como esse desconto pode ser efetivado, me impressiona a irresponsabilidade do governo ao propor algo desse tipo e logo em seguida querer cobrar a conta do revendedor, propondo a aplicação de severas multas para quem não praticar o valor nas bombas.

Isso significa que esse desconto não vai acontecer como prometido? Infelizmente não! E vou explicar os motivos e, principalmente, chamar a atenção dos revendedores dos efeitos disso.

Em primeiro lugar, é importante falar sobre a dinâmica de preços do setor. É muita irresponsabilidade se falar em redução imediata dos preços sendo que tanto os revendedores quanto as distribuidoras estão com seus estoques vinculados à custos e preços que vigoravam antes do acordo.

Bom, até aqui poderíamos dizer o seguinte, distribuidoras e revenda vão assumir a bomba! Ou seja, que engulam o prejuízo a seco em uma tentativa do governo de socializar seus prejuízos.

Em segundo, a refinaria passa exatamente os 46 centavos de desconto por litro do diesel às distribuidoras, no entanto, para cada litro de diesel entregue aos revendedores, 10% é biodiesel, e este não possui qualquer incentivo de desconto. Para que o desconto chegue de forma integral ao revendedor o governo estadual precisa compensar a política com reduções sobre o ICMS. Ou seja, é simples entender como vai acontecer, o problema é que o jogo nem sempre tem condições de acontecer conforme o que diz a regra. E se o estado não cumprir com sua parte? Aqueles 46 centavos serão, no máximo, 41.

Mas não é só isso, essa prática evidencia uma clara proposta de controle de preços do diesel por parte do governo. Isso te lembra algo? Claro que sim! Já vivemos isso muitas vezes no Brasil e não temos qualquer saudade. Quem não se lembra dos fracassados planos econômicos Bresser e Cruzado, que na década de 80 exerciam controle de preços sobre diversos produtos em uma tentativa de controlar a inflação?

Ora, vejam bem, o preço do diesel, assim como o de qualquer combustível nesse país é livre, o que implica que o mesmo pode variar de posto para posto. Como fiscalizar isso? Como o governo espera acompanhar esse processo? Os preços dos postos foram fiscalizados antes? De todos os postos?

Sim meus amigos, simplesmente tentem responder à pergunta de como saber os preços do diesel antes da redução em todo o país e chegarão a uma simples conclusão que essa medida não é nada sensata. De outro lado o governo ameaça fiscalizar e aplicar multas severas (novamente o bandido é o revendedor) para quem não cumprir essa medida política inoperante.

E se os 46 centavos de desconto do diesel não se efetivarem? Quais os riscos disso? Bom,o governo pode até chegar a fingir que não falou ou acordou isso no futuro, mas a conta vai ter que ser paga por alguém e não se enganem, o efeito pode virar contra o revendedor.

Por fim, lembram de quando disse dos planos de controle de preços fracassados do passado? Na época, existiam os fiscais do Sarney, que ligavam no telefone vermelho quando viam preços fora do estabelecido. Hoje a tecnologia mudou, mas o governo também quer criar os fiscais do Temer, disponibilizando um número de WhatsApp para que caminhoneiros denunciem postos de combustíveis. Disso tudo vale dizer que, oficialmente a ANP (Agência Nacional do Petróleo), ainda não declarou nada a respeito de como se dará essa fiscalização.

Mas, independente disso, pensem comigo: quem será fiscalizado por todas as instituições e sociedade? Quem será cobrado pelo desconto? Quem levará a culpa por boicotar um dos maiores movimentos de paralisação desse país? Quem será condenado como bandido em função de uma política irresponsável do governo? Quem terá que pagar multas? Que arcará com o prejuízo de um preço irreal?

Se você, assim como eu, respondeu revendedor a todas essas perguntas, está na hora de pensar no futuro, está na hora de se posicionar frente ao caos, levar tais questões a instâncias superiores, sindicatos e federações. Não se enganem, ninguém está pensando no revendedor, se não agirmos ninguém o fará por nós!